Estudo de Caso 14/08/2026 Equipe Hidroimagem 19 visualizações

Aquífero Guarani em SP: zonas produtoras no poço

O Sistema Aquífero Guarani (SAG) é o maior aquífero transfronteiriço do mundo em extensão contínua: ocupa cerca de 1,2 milhão de km² e abrange o Brasil, a Argentina, o Paraguai e o Uruguai. No estado de São Paulo, o SAG está presente em mais de 157 mil km² — aproximadamente 63% do território paulista. Para quem perfura poços no interior do estado, especialmente nas regiões de Araraquara, São Carlos, Ribeirão Preto, Bauru e Marília, compreender a geologia e o comportamento desse aquífero é o passo zero de qualquer projeto hidrogeológico sério.

Apesar de sua magnitude, o SAG não é um bloco homogêneo de arenito saturado. Ele é composto por duas formações geológicas distintas — Formação Botucatu (Jurássico) e Formação Piramboia (Triássico) —, cada uma com características hidráulicas, granulométricas e químicas próprias. Confundir essas formações dentro do furo, por falta de diagnóstico adequado, pode resultar em filtros mal posicionados, água de qualidade inferior e, no pior cenário, comunicação indevida entre aquíferos de naturezas distintas.

Este artigo explica a geologia das formações do SAG, mostra como a perfilagem geofísica identifica as zonas produtoras dentro do poço e apresenta um estudo de caso do interior paulista para ilustrar a aplicação prática desse conhecimento.

Geologia do SAG: Formações Piramboia e Botucatu

A Formação Botucatu é o principal reservatório produtivo do SAG. Originada em ambiente desértico (eólico) durante o Jurássico, é composta predominantemente por arenito quartzoso fino a médio, bem selecionado, com grãos arredondados e teor muito baixo de argilas. Essa granulometria confere à Botucatu porosidade efetiva entre 20% e 35% e permeabilidade elevada — propriedades que explicam a alta capacidade específica dos poços que atingem essa formação. A espessura varia de poucos metros nas bordas aflorantes até mais de 300 m no depocentro da Bacia do Paraná.

A Formação Piramboia, estratigraficamente abaixo da Botucatu, é mais heterogênea. Depositada em ambiente fluvial e eólico durante o Triássico, apresenta intercalações de arenitos, siltitos e lâminas argilosas. Essa variabilidade reduz a permeabilidade média e aumenta o teor de argila nos perfis — o que se reflete diretamente nos ensaios geofísicos e exige critério rigoroso para o posicionamento dos filtros. Em algumas regiões do interior paulista, a Piramboia é o único nível produtor atingido em poços mais rasos; em outras, ela é ultrapassada até se chegar à Botucatu subjacente.

Sobre o SAG, em grande parte do estado, encontra-se o derrame basáltico da Formação Serra Geral (Cretáceo Inferior), que funciona como capa confinante. É esse basalto que mantém o SAG sob pressão em boa parte do interior paulista, gerando o artesianismo típico dos poços que atingem a Botucatu em condições confinadas. A temperatura da água tende a crescer com a profundidade do confinamento: em poços com mais de 400 m é comum encontrar entre 30 °C e 45 °C, o que influencia as leituras dos perfis geofísicos e as condições operacionais da bomba submersa.

Para entender como essa configuração geológica afeta o comportamento do poço, incluindo os conceitos de nível estático e pressão artesiana, consulte também o artigo sobre aquífero livre e confinado publicado neste blog.

Como a perfilagem geofísica identifica as zonas produtoras no SAG

Após a perfuração do furo e antes da instalação do revestimento e dos filtros, a perfilagem geofísica multiparamétrica fornece um conjunto de curvas contínuas que caracterizam o perfil litológico, identificam as zonas aquíferas e avaliam a qualidade da água — tudo sem extração de testemunho e em poucas horas de campo. Para poços no SAG, os ensaios mais informativos são os descritos a seguir.

Raios gama (GR): distinguindo arenito limpo de argila

O perfil de raios gama mede a radioatividade natural das rochas, que é diretamente proporcional ao teor de argila e feldspato. A Formação Botucatu, por ser um arenito quartzoso muito limpo, apresenta os valores de GR mais baixos: tipicamente entre 10 e 30 API. Essa resposta quase plana na curva contrasta com a Formação Piramboia, cujas intercalações argilosas exibem picos acima de 60–80 API. O contato entre as duas formações — nem sempre evidente na análise visual dos fragmentos de calha — torna-se preciso na curva de raios gama. O topo do basalto da Serra Geral, por sua vez, aparece como anomalia pronunciada, sinalizando claramente a entrada no pacote aquífero. Para mais detalhes sobre a interpretação do GR na coluna litológica, veja o artigo sobre perfil de raios gama e identificação de litologia.

Resistividade e indução eletromagnética: lendo a qualidade da água

O perfil de resistividade — ou, em furos sem revestimento metálico, a indução eletromagnética (EM) — responde à capacidade da rocha de conduzir corrente elétrica. Água subterrânea doce, como a do SAG confinado, tem alta resistividade intersticial. Associada à porosidade da Botucatu, isso resulta em zonas de resistividade aparente muito elevada: frequentemente entre 50 Ω·m e 200 Ω·m, podendo ultrapassar esse valor em intervalos muito limpos. Por contraste, formações com alto teor de argila ou água mais mineralizada exibem baixa resistividade. No SAG, a combinação de resistividade alta e estável ao longo do intervalo Botucatu é um dos marcadores mais confiáveis das zonas produtoras de boa qualidade. Intervalos de resistividade anormalmente baixa dentro da Botucatu podem indicar água mais mineralizada ou intercalações de sedimentos finos e devem ser evitados na instalação dos filtros.

Temperatura e condutividade elétrica da água

O perfil de temperatura, medido com a coluna de água em repouso, mapeia anomalias térmicas que revelam zonas de entrada de água no poço. No SAG confinado, as descontinuidades permeáveis mais ativas produzem inflexões térmicas identificáveis na curva. O perfil de condutividade elétrica da água (CE) complementa essa análise: um aumento súbito de CE a determinada profundidade pode indicar entrada de água de outra origem ou comunicação com aquífero raso — situação que exige cimentação rigorosa para impedir mistura. Esse tipo de diagnóstico combinado foi o tema do artigo sobre interconexão entre aquíferos, que recomendamos como leitura complementar.

Caliper e perfil sônico

O caliper registra o diâmetro do furo ao longo da profundidade: alargamentos indicam zonas friáveis ou argilosas; diâmetro nominal constante aponta formações competentes. O perfil sônico auxilia na distinção entre arenitos consolidados e não consolidados — dado importante para prever o risco de colapso do furo e especificar o comprimento adequado dos filtros ranhurados. O conjunto dessas informações permite ao hidrogeólogo definir com precisão onde instalar os filtros e onde aplicar o cimento de isolamento.

Estudo de caso: interior paulista, região de Araraquara

Em 2025, a Equipe Hidroimagem realizou a perfilagem geofísica de um poço tubular recém-perfurado em uma propriedade agroindustrial no interior paulista, a cerca de 60 km de Araraquara. O poço tinha 360 m de profundidade total, perfurado com tricone e jato rotativo, e a análise dos fragmentos de calha indicava presença de arenito a partir de 290 m — mas sem clareza sobre se o intervalo correspondia à Botucatu ou à Piramboia, distinção crítica para a produtividade e a qualidade da água.

A perfilagem geofísica multiparamétrica resolveu a questão em menos de três horas de campo, com os seguintes resultados:

  • 0 a 240 m — Formação Serra Geral (basalto): GR elevado, resistividade muito alta (rocha cristalina sem água), caliper estável no diâmetro nominal de perfuração.
  • 240 a 295 m — Formação Piramboia: GR variável entre 35 e 75 API, resistividade moderada (20–45 Ω·m), temperatura da água 29 °C, condutividade elétrica = 280 µS/cm.
  • 295 a 360 m — Formação Botucatu: GR abaixo de 25 API, resistividade entre 110 e 185 Ω·m, temperatura crescente (31–34 °C), CE estável em 190 µS/cm.
  • Anomalia entre 312 e 318 m: pico de GR de 58 API e queda de resistividade para 38 Ω·m — intercalação argilosa que não deveria receber filtro, identificada com precisão métrica.

Com base nos perfis, os filtros ranhurados foram posicionados exclusivamente nos intervalos limpos da Botucatu (295–312 m e 318–360 m), excluindo a intercalação argilosa central. A cimentação isolou toda a Piramboia e o basalto acima. O resultado após o desenvolvimento do poço foi uma vazão de 42 m³/h com nível dinâmico estabilizado a 58 m de profundidade. A análise físico-química da água demonstrou excelente qualidade: sólidos totais dissolvidos abaixo de 180 mg/L, dureza classificada como mole e parâmetros dentro dos padrões de potabilidade da Portaria GM/MS 888/2021.

Sem a perfilagem, a decisão de posicionar os filtros teria sido baseada apenas na análise visual dos cuttings, com alto risco de incluir a intercalação argilosa e comprometer a eficiência do poço a longo prazo.

Cimentação e isolamento: por que o SAG exige atenção especial

Um erro técnico relativamente frequente em poços que atingem o SAG é a cimentação insuficiente do espaço anular entre o revestimento e a parede do furo. No interior paulista, existe quase sempre pelo menos um aquífero raso sobreposto ao SAG — geralmente sedimentos da Formação Bauru (arenitos Cretáceos) ou depósitos cenozoicos —, com características físico-químicas e microbiológicas distintas. Cimentação inadequada cria caminho preferencial para que a água do aquífero raso migre para o SAG, contaminando-o ou diluindo sua qualidade ao longo do tempo.

O perfil de temperatura realizado logo após a cimentação — aproveitando o calor de hidratação do cimento ainda fresco — confirma onde o material efetivamente preencheu o espaço anular. Zonas sem anomalia térmica pós-cimentação indicam bolsas de ar ou falha de preenchimento que devem ser corrigidas antes da instalação do equipamento de bombeamento.

A filmagem óptica de poço, com câmera 360° de alta definição, complementa esse diagnóstico: permite visualizar a integridade da luva de cimentação na parte superior do revestimento, verificar a ausência de retornos de água pela parte externa do tubo e confirmar que as conexões dos filtros estão íntegras após o endurecimento do cimento.

Quando a perfilagem no SAG é indispensável

Embora o custo da perfilagem possa parecer um fator de hesitação em poços menores, o investimento se justifica com facilidade em qualquer um dos cenários abaixo:

  • Poços de produção industrial ou agrícola com demanda acima de 10 m³/h, onde a otimização dos filtros tem retorno imediato em produtividade.
  • Poços que atravessam múltiplos aquíferos sobrepostos — situação muito comum no centro-oeste paulista, onde Bauru, Piramboia e Botucatu são atingidos no mesmo furo.
  • Poços com exigência de outorga do DAEE-SP, que requerem laudo técnico com descrição do intervalo produtor, parâmetros hidrodinâmicos e esquema construtivo documentado.
  • Região de zona de afloramento do SAG, como parte da área de Araraquara, onde o confinamento é parcial ou inexistente e a identificação precisa do nível produtor é ainda mais crítica para evitar superexplotação.

Nesses cenários, a perfilagem geofísica não é uma etapa opcional — é o instrumento que transforma o furo perfurado em um poço tecnicamente qualificado e regularizável.

Perguntas frequentes

O Aquífero Guarani está disponível em toda a região de Araraquara?

Sim. A região de Araraquara está inserida na porção aflorante e subaflorante do SAG. Em parte da área, o Botucatu aflora diretamente na superfície ou está coberto por sedimentos do Bauru, sem o basalto confinante. Nessas condições, o SAG pode ser atingido em profundidades menores, porém em condições não confinadas — o que reduz o potencial artesiano mas não elimina a produtividade. A perfilagem geofísica identifica com precisão em qual situação o poço se enquadra.

Qual é a profundidade típica para atingir o SAG no interior paulista?

Varia conforme a localização. Na zona de afloramento, sem basalto sobreposto, o SAG pode ser atingido entre 60 m e 150 m. Na zona confinada, com basalto da Serra Geral, a profundidade usual fica entre 200 m e 500 m, podendo ultrapassar 1.000 m nas regiões mais ocidentais do estado. O perfil geofísico pós-perfuração é o único método que confirma a qual formação pertence o intervalo produtor encontrado.

Por que a água do poço no SAG às vezes tem cheiro ou gosto residual?

No SAG confinado, a água circula lentamente por séculos e pode acumular compostos reduzidos como ferro ferroso, manganês e, em casos localizados, sulfeto de hidrogênio — responsável pelo odor característico de ovo podre. Esses compostos são naturais do ambiente redutor do aquífero e não indicam contaminação antrópica, mas precisam ser tratados antes do consumo humano. A análise físico-química periódica e a filmagem do poço ajudam a distinguir esse fenômeno natural de problemas estruturais no revestimento.

A perfilagem geofísica substitui o teste de bombeamento?

Não — os dois ensaios se complementam. A perfilagem identifica as zonas produtoras e quantifica suas características elétrico-litológicas, mas não mede diretamente a vazão sustentável do aquífero. O teste de bombeamento (em etapas escalonadas e bombeamento prolongado) determina a capacidade específica, o nível dinâmico e o rebaixamento — dados exigidos pelo DAEE-SP para a outorga de uso. O resultado ideal combina os dois: a perfilagem define os filtros e a cimentação antes do teste; o teste dimensiona a bomba definitiva.

É possível identificar pelo perfil se a água do SAG é potável?

A resistividade e a condutividade elétrica da água fornecem uma estimativa indireta da mineralização: alta resistividade indica baixo teor de sais dissolvidos, favorável à potabilidade. Porém, a confirmação definitiva sobre potabilidade exige análise físico-química e microbiológica em laboratório acreditado. A perfilagem orienta onde coletar as amostras mais representativas — nas zonas produtoras efetivas — e indica se há risco de mistura com aquífero raso antes mesmo de realizar as análises.

Referências

REBOUÇAS, A. C.; BRAGA, B.; TUNDISI, J. G. (orgs.). Águas doces no Brasil: capital ecológico, uso e conservação. 3. ed. São Paulo: Escrituras, 2006.

FEITOSA, F. A. C.; MANOEL FILHO, J.; FEITOSA, E. C.; DEMETRIO, J. G. A. (eds.). Hidrogeologia: conceitos e aplicações. 3. ed. Rio de Janeiro: CPRM/LABHID, 2008.

CPRM/SGB — SERVIÇO GEOLÓGICO DO BRASIL. Mapa Hidrogeológico do Brasil ao milionésimo. Brasília: CPRM, 2014. Disponível em: geosgb.cprm.gov.br.

DAEE-SP — DEPARTAMENTO DE ÁGUAS E ENERGIA ELÉTRICA. Boletim de dados de poços tubulares profundos do Estado de São Paulo. São Paulo: DAEE, 2022. Disponível em: www.daee.sp.gov.br.

ABNT NBR 12212:2017. Projeto de poço para captação de água subterrânea — Procedimento. Rio de Janeiro: ABNT, 2017.

ABNT NBR 12244:2006. Construção de poço para captação de água subterrânea — Procedimento. Rio de Janeiro: ABNT, 2006.

ROSA FILHO, E. F. et al. Sistema Aquífero Guarani: generalidades. Curitiba: Mineropar/UFPR, 2003.

ANA — AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS E SANEAMENTO BÁSICO. Relatório conjuntura dos recursos hídricos no Brasil. Brasília: ANA, 2023. Disponível em: www.ana.gov.br.

← Voltar ao Blog