Estudo de Caso 03/10/2026 Equipe Hidroimagem 1 visualizações

Corrosão no revestimento do poço: como detectar cedo

Por que o revestimento de aço envelhece dentro do poço

O revestimento metálico é o elemento estrutural central de um poço tubular profundo. Em aço carbono — material dominante nos poços perfurados até os anos 2000 —, ele sustenta a coluna litológica, isola aquíferos de qualidades distintas e serve de guia para a coluna de bombeamento. Quando a corrosão avança sem diagnóstico, o processo é progressivo e silencioso: a vazão cai, areia começa a entrar, a água adquire sabor ferroso e, no limite, o revestimento colapsa a ponto de impedir a manutenção ou travar a retirada da bomba.

O problema é mais comum do que parece. Segundo dados do banco de poços SIAGAS, mantido pela CPRM/SGB, grande parte dos poços tubulares do interior paulista tem entre 20 e 40 anos de operação — exatamente a faixa etária em que a corrosão começa a se manifestar de forma crítica, especialmente em captações que nunca passaram por inspeção interna.

Tipos de corrosão em poços tubulares

Não existe um único mecanismo de corrosão em revestimentos de aço. O diagnóstico correto depende de identificar qual processo predomina, pois cada um deixa marcas distintas na parede do tubo e exige abordagem diferente na reabilitação.

  • Corrosão uniforme: desgaste generalizado da superfície interna, provocado pelo contato contínuo com água agressiva. É a forma mais lenta e, paradoxalmente, a que mais dificulta a quantificação precisa da perda de espessura sem caliper.
  • Corrosão por pitting (puntiforme): ataque concentrado em pontos isolados, formando cavidades profundas enquanto a maior parte da superfície permanece íntegra. É a forma mais perigosa: pode perfurar a parede do revestimento sem que o diâmetro interno mude significativamente.
  • Corrosão galvânica: ocorre na interface entre metais de potenciais eletroquímicos diferentes — por exemplo, entre conexões de aço carbono e uniões em inox ou latão, materiais eventualmente usados em reparos pontuais.
  • Corrosão microbiologicamente influenciada (MIC): mediada por bactérias sulfato-redutoras (BSR) ou ferro-oxidantes, que alteram o ambiente eletroquímico na superfície do aço e aceleram drasticamente a perda de material.

Fatores que tornam alguns poços mais vulneráveis

A agressividade da água ao revestimento depende de parâmetros físico-químicos específicos do aquífero. No interior paulista, algumas combinações são particularmente críticas:

  • pH baixo e CO₂ livre elevado: frequente em zonas do Aquífero Bauru onde a água é levemente ácida. O CO₂ dissolvido forma ácido carbônico, que ataca diretamente o aço.
  • Sulfatos e sulfeto de hidrogênio (H₂S): presentes em determinadas zonas do Sistema Aquífero Guarani, especialmente nas fácies mais profundas. O H₂S acelera o pitting e produz o característico cheiro de ovo podre na água.
  • Bactérias sulfato-redutoras (BSR): se estabelecem em ambientes anaeróbios, como o fundo de poços mal desenvolvidos ou com acúmulo de sedimentos. Produzem H₂S como subproduto metabólico, criando condições para a MIC.
  • Cloretos em concentração elevada: embora menos comuns nos aquíferos paulistas que em captações costeiras, cloretos acima de 250 mg/L rompem a camada passiva do aço e iniciam o processo de pitting com rapidez.
  • Corrente de fuga elétrica: poços próximos a sistemas elétricos aterrados — cercas eletrificadas, motores, estruturas metálicas — podem sofrer corrosão eletrolítica intensa, muitas vezes ignorada durante o diagnóstico convencional.

O que a filmagem óptica enxerga

A filmagem de poço artesiano com câmera 360° de alta definição é a ferramenta mais direta para documentar o estado superficial do revestimento. Em um poço com corrosão em andamento, a câmera registra:

  • manchas de óxido de ferro distribuídas ao longo da coluna ou concentradas em zonas específicas;
  • cavidades de pitting visíveis — pequenas crateras escuras na parede do tubo;
  • perda de revestimento interno de proteção (epóxi ou galvanizado) em tubos que passaram por tratamento anticorrosivo;
  • presença de biofilme escuro ou depósitos gelatinosos, indicativos de colônia bacteriana ativa (MIC);
  • deformações geométricas visíveis: amassamentos, ovalizações ou fraturas no revestimento colapsado.

A filmagem localiza o problema com precisão ao longo de toda a profundidade. Isso é essencial: em um poço de 180 metros, saber que a corrosão crítica está entre 45 e 65 metros permite planejar a reabilitação sem trabalhar às cegas.

O que o caliper acrescenta ao diagnóstico

A câmera óptica mostra a superfície; o caliper geofísico mede a geometria. O caliper de braços — mecânico, com três ou quatro sensores de contato — registra o diâmetro interno do revestimento com continuidade ao longo de toda a coluna perfurada.

Na interpretação do perfil caliper aplicado ao diagnóstico de corrosão, os padrões mais relevantes são:

  • Diâmetro acima do nominal: em fase inicial de corrosão uniforme avançada, a perda de espessura pode resultar em leve aumento do diâmetro interno, ainda sem colapso. O sinal é sutil, mas mensurável.
  • Redução brusca e localizada do diâmetro: indica colapso parcial — amassamento ou flambagem do revestimento. Ocorre quando a pressão do maciço rochoso supera a resistência residual do tubo já corroído.
  • Irregularidades cíclicas ao longo das emendas: a corrosão galvânica costuma se concentrar nas conexões roscadas entre tubo e tubo. O caliper identifica essas zonas como picos negativos recorrentes na profundidade das emendas.

A combinação de filmagem óptica com caliper é o padrão diagnóstico mais robusto disponível para poços em operação. A imagem confirma o tipo e o aspecto visual; a curva de diâmetro quantifica o impacto estrutural e permite avaliar se o poço ainda suporta com segurança a bomba instalada.

Estudo de caso: indústria no interior de São Paulo

Em 2024, a Equipe Hidroimagem foi acionada para inspecionar um poço tubular com 25 anos de operação em uma indústria de médio porte na região de Araraquara. Os sintomas relatados eram clássicos: aumento gradual do teor de ferro na água (de 0,18 mg/L para 0,61 mg/L em dois anos), episódios esporádicos de areia fina e queda de 18% na vazão em relação ao histórico de operação.

O poço tinha 182 metros de profundidade, revestimento em aço carbono de 6 polegadas, instalado em 1999 — sem qualquer inspeção visual documentada desde a perfuração. A análise de água indicava pH de 6,4 e CO₂ livre de 38 mg/L, parâmetros consistentes com o Aquífero Bauru na unidade geológica local.

A inspeção integrada incluiu filmagem óptica 360° e caliper de três braços. Os resultados foram os seguintes:

  • Filmagem (0–182 m): oxidação superficial difusa entre 18 e 42 metros, sem comprometimento estrutural aparente. Entre 45 e 68 metros, pitting intenso com cavidades de 2 a 8 mm de diâmetro, concentradas no lado voltado para leste — padrão sugestivo de corrente de fuga elétrica originada na cerca eletrificada do pátio industrial. Presença de biofilme escuro entre 62 e 68 metros.
  • Caliper (0–182 m): diâmetro nominal de 6 pol. mantido na maior parte da coluna. Redução de 11% no diâmetro interno registrada a 57,4 metros — ponto correspondente à emenda entre tubo e luva, zona de pitting mais intenso. Sinal consistente com início de colapso parcial.

Com base nos dados, a equipe recomendou a instalação de um liner de PVC reforçado entre 43 e 70 metros, cimentação do espaço anular e tratamento bactericida antes do tamponamento. A solução postergou a perfuração de um novo poço — estimada em seis vezes o custo da intervenção — e restabeleceu a vazão original após o desenvolvimento pós-reabilitação.

Periodicidade ideal de inspeção

Não existe norma brasileira que fixe o intervalo de inspeção interna de revestimento por corrosão. A ABNT NBR 12212:2017 estabelece requisitos construtivos e de manutenção geral, mas não especifica frequência de inspeção visual. A prática técnica recomendada por hidrogeólogos e pela literatura internacional (AWWA M21) sugere:

  • primeira inspeção visual e caliper entre o 10.º e o 15.º ano de operação;
  • repetição a cada cinco anos a partir daí, ou imediatamente diante de qualquer deterioração nos indicadores de qualidade da água;
  • inspeção imediata sempre que a análise química indicar aumento de ferro, manganês ou sulfatos acima dos limites históricos do poço.

Para poços em aquíferos com água agressiva — pH abaixo de 6,5, CO₂ acima de 30 mg/L, H₂S detectável ou sulfatos acima de 100 mg/L — o intervalo recomendado é de três anos. Veja também nosso artigo sobre vida útil do poço artesiano e sobre diagnóstico de incrustação em poços tubulares para completar o quadro de degradação estrutural que compromete captações mais antigas.

Perguntas frequentes

Com que idade um poço de aço começa a apresentar corrosão crítica?

Depende da agressividade da água e das condições construtivas, mas poços em regiões com água levemente ácida ou com presença de sulfetos costumam apresentar os primeiros sinais de pitting entre 12 e 18 anos de operação. Em condições mais brandas, o prazo pode ultrapassar 25 anos. A inspeção periódica é o único modo confiável de detectar o início do processo antes que a corrosão comprometa a estrutura do poço.

A corrosão no revestimento pode contaminar a água?

Sim, de duas formas. A dissolução do aço eleva o teor de ferro na água, que pode ultrapassar o limite de 0,3 mg/L estabelecido pela Portaria GM/MS 888/2021. Além disso, a perfuração da parede do revestimento pelo pitting abre caminho para a entrada de água de aquíferos rasos ou da zona insaturada, com risco de contaminação biológica. O pitting avançado é, portanto, um problema simultâneo de qualidade da água e de saúde pública.

É possível reparar o revestimento sem perfurar um novo poço?

Em muitos casos, sim. A técnica mais comum é a instalação de um liner — revestimento interno de menor diâmetro, geralmente em PVC reforçado ou aço inox — na zona afetada. O liner isola a área corroída do contato com a água e restaura a integridade estrutural local. O sucesso depende da extensão do dano: zonas isoladas com colapso inferior a 30% do diâmetro nominal são normalmente reabilitáveis; colapsos distribuídos ao longo de dezenas de metros podem inviabilizar o reaproveitamento do poço.

A filmagem de poço identifica todos os tipos de corrosão?

A filmagem óptica identifica com alta confiabilidade o pitting, a corrosão uniforme visível e o biofilme bacteriano. Ela não consegue, sozinha, quantificar a perda de espessura da parede nem detectar a corrosão galvânica que ocorre na interface interna da emenda roscada quando coberta por depósitos. Para esses casos, o caliper é indispensável. O diagnóstico mais completo combina os dois métodos: filmagem para localização visual e caliper para quantificação estrutural.

Existe alternativa ao aço carbono para novos poços?

Sim. Poços perfurados a partir dos anos 2010 frequentemente optam por revestimento em PVC geomecânico (Schedule 40 ou 80) nas zonas não confinadas e em aço inox AISI 304 nas zonas produtoras. O PVC é quimicamente inerte às águas agressivas comuns nos aquíferos do interior paulista, embora tenha limitações mecânicas em profundidades superiores a 300 metros. O inox resiste bem à corrosão por pitting, mas tem custo significativamente maior. A escolha deve ser baseada na análise físico-química da água do aquífero, realizada antes da especificação do revestimento.

Referências

CPRM/SGB. SIAGAS — Sistema de Informações de Águas Subterrâneas. Serviço Geológico do Brasil.
ABNT. NBR 12212: Projeto de poço para captação de água subterrânea — Procedimento. Rio de Janeiro: ABNT, 2017.
AWWA (American Water Works Association). Manual M21 — Groundwater. 4.ª ed. Denver: AWWA, 2014.
DRISCOLL, F. G. Groundwater and Wells. 2.ª ed. St. Paul: Johnson Filtration Systems, 1986.
BRASIL. Portaria GM/MS n.º 888, de 4 de maio de 2021. Estabelece o padrão de potabilidade da água. Ministério da Saúde.
DAEE/SP. Roteiro para apresentação de projetos de captação de águas subterrâneas. São Paulo: DAEE, 2015.

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