Estudo de Caso 03/10/2026 Equipe Hidroimagem 1 visualizações

Perfilagem geofísica na zona de recarga do Guarani

O Aquífero Guarani é uma das maiores reservas de água subterrânea do mundo, com extensão de 1,2 milhão de km² abrangendo Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. No estado de São Paulo — e especialmente na região de Araraquara, Ribeirão Preto e São Carlos —, boa parte do território está sobre a zona de recarga direta do sistema, onde as formações Botucatu e Piramboia afloram à superfície e permitem a infiltração das chuvas para o interior do aquífero. É justamente nessa faixa que a perfilagem geofísica de poços assume papel crítico: sem ela, o perfurador trabalha às cegas em uma litologia que pode variar de arenitos altamente produtivos a camadas argilosas impermeáveis com apenas metros de diferença.

O que é a zona de recarga e por que ela muda tudo no projeto do poço

Aquíferos confinados e livres respondem de forma muito diferente ao bombeamento e à completação. Na zona de recarga do Guarani, o aquífero é tipicamente livre a semiconfinado: a ausência de uma camada confinante contínua significa que a coluna saturada varia com a pluviometria e que a superfície piezométrica pode estar a profundidades muito distintas de um ponto a outro, mesmo a poucos quilômetros de distância.

Para o perfurador e para o hidrogeólogo, isso implica que a profundidade dos filtros não pode ser definida apenas pelo perfil litológico das amostras de calha — método que identifica a rocha, mas não diz se ela está saturada nem qual é a qualidade da água naquele intervalo. A perfilagem geofísica preenche exatamente essa lacuna: ela mede, dentro do poço já perfurado, propriedades físicas da formação e do fluido presente nos poros, permitindo uma correlação confiável entre litologia, saturação e condutividade hidráulica.

Principais ferramentas geofísicas aplicadas na zona de recarga

A interpretação de um poço tubular na zona de recarga do Guarani demanda ao menos três tipos de sondas, empregadas em sequência durante uma única descida na coluna d'água:

Perfilagem de raios gama (gamma ray)

A sonda de raios gama mede a radioatividade natural da formação, predominantemente associada ao teor de argila. Nos arenitos da Formação Botucatu, tipicamente bem selecionados e de baixo teor argiloso, o log de raios gama apresenta valores baixos e estáveis (15–35 API). Intercalações argilosas da Formação Piramboia elevam o sinal acima de 60 API. Essa distinção, registrada metro a metro, é a base para separar zonas produtivas de zonas inadequadas para posicionar filtros.

Perfilagem de resistividade elétrica

A resistividade elétrica da formação é inversamente proporcional à condutividade iônica do fluido nos poros. Água doce em arenito de granulometria grossa apresenta resistividade elevada (100–500 Ω·m); argilas saturadas com água apresentam valores entre 5 e 20 Ω·m. A comparação das curvas de resistividade longa e curta permite estimar a salinidade da água native da formação e identificar zonas de água de qualidade adequada para captação.

Perfilagem de potencial espontâneo (SP)

O potencial espontâneo registra a diferença de potencial elétrico entre a formação e o fluido de perfuração. Em arenitos permeáveis e bem selecionados, a deflexão negativa do SP é um indicativo clássico de alta permeabilidade. Nas camadas argilosas, o SP é plano ou levemente positivo. A integração do SP com o gamma ray e a resistividade elimina boa parte das ambiguidades na escolha dos intervalos de cimentação e filtragem.

Estudo de caso: poço tubular em área de recarga no interior paulista

Em um condomínio rural situado no município de Analândia-SP — área de afloramento das Formações Botucatu e Piramboia —, a Hidroimagem realizou perfilagem geofísica completa em um poço tubular recém-perfurado de 280 metros de profundidade, com diâmetro de 8 polegadas no trecho produtor.

O objetivo era o Aquífero Guarani no intervalo Botucatu (150–280 m). As amostras de calha indicavam arenito grosso a médio na maior parte do intervalo, mas a equipe de perfuração relatou perda parcial de fluido em dois pontos distintos — sinal de zonas altamente permeáveis, sem localização precisa.

Interpretação dos perfis e decisões de completação

Com os perfis de gamma ray, resistividade e SP em mãos, o hidrogeólogo responsável pelo laudo identificou quatro intervalos distintos entre 150 e 280 metros:

  • 150–178 m: Gamma ray baixo (20–28 API), resistividade alta (310 Ω·m), deflexão negativa no SP — arenito Botucatu limpo, saturado com água doce, alta permeabilidade. Zona principal para filtros.
  • 178–202 m: Gamma ray alto (65–80 API), resistividade baixa (12 Ω·m) — intercalação argilosa da base da Formação Piramboia. Intervalo a cimentar e isolar.
  • 202–245 m: Gamma ray moderado a baixo (35–50 API), resistividade intermediária (80–120 Ω·m) — arenito com cimentação parcial de óxido de ferro, permeabilidade reduzida. Filtrar com tela de aço de malha fina para captação complementar.
  • 245–280 m: Gamma ray baixo (18–25 API), resistividade muito alta (480 Ω·m) — arenito Botucatu de granulometria fina a média, muito limpo, altamente produtivo. Zona prioritária para filtros de fenda maquinada.

Sem a perfilagem, a completação provavelmente teria posicionado filtros no intervalo argiloso de 178–202 m, comprometendo a qualidade da água e reduzindo a eficiência do poço. Com a interpretação dos logs, os filtros foram colocados nos intervalos 150–178 m e 245–280 m, com cimentação de proteção no intervalo argiloso intermediário.

O teste de bombeamento realizado após a completação confirmou vazão sustentada de 38 m³/h com nível dinâmico estabilizado a 42 metros — compatível com as zonas altamente permeáveis identificadas nos logs. A análise físico-química da água mostrou condutividade elétrica de 82 µS/cm, confirmando a baixa mineralização esperada para o Guarani na zona de recarga.

Correlação entre perfilagem geofísica e filmagem óptica

Após a completação, a filmagem com câmera HD 360° complementou o trabalho geofísico: as imagens confirmaram o posicionamento correto dos filtros e revelaram uma leve deformação de um anel de cimentação no intervalo 195–198 m, corrigida antes da instalação da bomba. Essa sinergia entre os dois serviços — geofísica para escolha das zonas produtoras, filmagem para inspeção da completação — é a abordagem que a Hidroimagem recomenda para poços em zonas de recarga, onde erros de projeto têm custo alto de correção.

Conheça em detalhe cada um desses serviços nas páginas de perfilagem geofísica e de filmagem de poço artesiano da Hidroimagem.

Implicações para o licenciamento e a outorga

No estado de São Paulo, o DAEE (Departamento de Águas e Energia Elétrica) exige que o processo de outorga de poços captando o Aquífero Guarani inclua, além do relatório de perfuração, dados de perfilagem geofísica ou teste de bombeamento com análise de aquífero. A perfilagem, quando interpretada corretamente, fornece os parâmetros de espessura saturada e condutividade hidráulica estimada que fundamentam o cálculo da capacidade específica e da vazão outorgável.

Na zona de recarga, onde o aquífero é parcialmente vulnerável à contaminação superficial, a documentação da profundidade e integridade da cimentação de proteção é requisito técnico que a perfilagem e a filmagem comprovam de forma objetiva — reduzindo o risco de indeferimento por insuficiência de informações. O artigo sobre outorga de recursos hídricos detalha os documentos e as etapas do processo na SP Águas (antigo DAEE).

Quando a perfilagem é obrigatória e quando é apenas recomendada

A Resolução DAEE nº 717/1996 e as normas ABNT NBR 12212 (projeto de poço) e NBR 12244 (construção) não tornam a perfilagem universalmente obrigatória, mas indicam que o poço deve ser documentado de forma suficiente para a outorga. Na prática, a SP Águas tem exigido perfilagem ou justificativa técnica equivalente para poços que exploram o Sistema Aquífero Guarani em profundidades acima de 100 m.

Mesmo quando não é exigida, a perfilagem é economicamente justificável em qualquer poço acima de 150 m: o custo do ensaio é inferior a 5–8% do custo total de perfuração e completação, enquanto um erro de posicionamento de filtros pode custar de 30 a 60% do valor do poço em retrabalho — ou inviabilizar a obra completamente.

Perguntas frequentes

A perfilagem geofísica pode ser feita em poços com revestimento já instalado?

Sim, com limitações. As sondas de gamma ray e indução eletromagnética atravessam o revestimento de PVC e fornecem dados confiáveis de litologia e saturação. Sondas de resistividade convencional e SP exigem poço aberto (sem revestimento no trecho de interesse). Por isso, o ideal é realizar a perfilagem antes da instalação do revestimento, embora em poços já revestidos ainda seja possível obter informações valiosas sobre litologia e qualidade da água.

Quais formações geológicas são mais comuns na região de Araraquara?

Na região de Araraquara e no centro-leste do estado de São Paulo, o perfil típico encontra Formação Serra Geral (basalto, até 100–150 m em parte da área), seguida pela Formação Botucatu (arenito eólico do Guarani, com 100–300 m de espessura) e, eventualmente, Formação Piramboia (arenito fluvial intercalado com argilas). Em áreas de afloramento, a Serra Geral pode estar ausente e o Botucatu aflora diretamente sob o solo.

A perfilagem geofísica identifica contaminação da água?

A perfilagem identifica anomalias de condutividade elétrica que podem indicar água de maior salinidade ou intrusão de fluidos de aquíferos rasos. Ela não substitui a análise físico-química laboratorial, mas indica onde há variação na qualidade da água ao longo da coluna, orientando a coleta de amostras representativas e a decisão sobre quais intervalos isolar na completação.

Quanto tempo demora uma perfilagem geofísica completa em campo?

Uma perfilagem completa com sondas de gamma ray, resistividade e SP em um poço de 250–300 m demora, em média, de 4 a 6 horas em campo, incluindo preparação, descida das sondas e registro digital. O laudo interpretativo é entregue em até 5 dias úteis após o ensaio, já com recomendação de posicionamento de filtros e cimentação.

A filmagem óptica pode substituir a perfilagem geofísica?

Não. As duas técnicas são complementares. A filmagem revela a estrutura física visível do poço — revestimento, filtros, obstruções, fraturas e depósitos — mas não mede propriedades da formação além do trecho visível. A perfilagem geofísica mede o que a câmera não enxerga: saturação, litologia e condutividade elétrica da rocha ao redor do poço. Para poços novos em zonas produtoras complexas, o mais indicado é utilizar as duas técnicas em sequência.

Referências

HIRATA, R. C. A. et al. Hidrogeologia do Estado de São Paulo. SMA/IG, 2005.

ABNT NBR 12212:2017. Projeto de poço para captação de água subterrânea. Associação Brasileira de Normas Técnicas.

ABNT NBR 12244:2006. Construção de poço para captação de água subterrânea. Associação Brasileira de Normas Técnicas.

CPRM — Serviço Geológico do Brasil. Sistema de Informações de Águas Subterrâneas (SIAGAS). Disponível em: siagasweb.sgb.gov.br.

DAEE-SP. Manual de Outorga de Poços Tubulares Profundos. Departamento de Águas e Energia Elétrica, 2016.

KEYS, W. S. A Practical Guide to Borehole Geophysics in Environmental Investigations. USGS, 1989.

OEA/GEF — Projeto Guarani. Estratégia Regional de Proteção e Desenvolvimento Sustentável do Sistema Aquífero Guarani. OEA, 2009.

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