O Sistema Aquífero Bauru (SAB) ocupa cerca de 100.000 km² no estado de São Paulo e abastece mais de 400 municípios, incluindo grande parte do interior paulista onde atua a Equipe Hidroimagem. Apesar de ser menos citado que o Sistema Aquífero Guarani, o SAB é a principal fonte de abastecimento subterrâneo em inúmeras cidades de médio porte nas regiões de Ribeirão Preto, Bauru, Marília e Presidente Prudente. Em propriedades rurais e industriais, muitas vezes é o único recurso disponível. Conhecer suas peculiaridades hidrogeológicas é o ponto de partida para projetar e manter poços que produzam água com quantidade e qualidade suficientes ao longo de décadas.
Caracterização do Sistema Aquífero Bauru
O SAB reúne sedimentos do Grupo Bauru, depositados no Cretáceo Superior (entre 90 e 65 milhões de anos atrás) sobre os basaltos da Formação Serra Geral. Em São Paulo, as formações mais relevantes para captação de água subterrânea são três:
- Formação Adamantina: predominante no centro-oeste paulista, composta por arenitos finos a muito finos com camadas argilosas intercaladas. Apresenta porosidade intergranular elevada, mas permeabilidade moderada a baixa, exigindo seleção cuidadosa dos intervalos de filtragem.
- Formação Araçatuba: fácies argilosa e siltosa de baixa permeabilidade, frequentemente interpretada como aquitarde natural que separa zonas produtoras distintas. Filtrar essa camada é o erro mais comum em poços mal projetados no SAB.
- Formação Caiuá: arenitos avermelhados de granulometria fina a média, predominantes no noroeste do estado. A seleção granulométrica é melhor que na Adamantina e, em geral, a condutividade hidráulica é mais elevada, resultando em maiores vazões por metro de filtro.
O contato na base do SAB com os basaltos Serra Geral merece atenção especial: fraturas nos primeiros metros do basalto podem contribuir com vazão adicional ao poço, mas exigem cimentação rigorosa do espaço anular nesse intervalo para evitar a interconexão entre aquíferos de características hidroquímicas distintas — problema abordado em detalhe pela perfilagem geofísica.
Comportamento hidrogeológico: o que esperar
O SAB é predominantemente um aquífero livre a semiconfinado. Isso significa que o nível d'água responde de forma direta às variações sazonais de recarga: no inverno seco do interior paulista, o rebaixamento pode ultrapassar dez metros em relação ao nível medido ao final das chuvas de verão. Poços perfurados sem levantamento prévio dos níveis sazonais correm o risco de ter a bomba instalada acima do nível dinâmico mínimo — situação que causa bombeamento a seco e queima do motor no período mais crítico do ano.
A transmissividade do SAB varia amplamente. Valores típicos na Formação Adamantina oscilam entre 10 e 200 m²/dia, com mediana em torno de 50 m²/dia segundo os dados do banco SIAGAS (CPRM/SGB). Na Formação Caiuá, registram-se transmissividades mais elevadas, chegando a 500 m²/dia em alguns setores. Esse contraste tem impacto direto na capacidade específica do poço e na distância mínima que deve ser mantida entre captações vizinhas para evitar interferência mútua.
A qualidade química da água no SAB é, em geral, satisfatória. O pH costuma ser levemente ácido — entre 5,5 e 6,8 —, o que torna a água corrosiva para tubulações de aço carbono sem proteção e eleva o risco de lixiviação de material metálico dos filtros e revestimentos. O teor de sólidos totais dissolvidos (STD) situa-se tipicamente abaixo de 200 mg/L, muito inferior ao limite de 1.000 mg/L da Portaria GM/MS 888/2021. Exceções ocorrem próximo a zonas de recarga impactadas por atividade agrícola intensa, onde nitratos podem superar 10 mg/L — o limite máximo para água potável estabelecido pela mesma portaria.
Por que a perfilagem geofísica é decisiva no SAB
A descrição do material construtivo registrada durante a perfuração oferece uma ideia aproximada das camadas atravessadas. Porém, sem a perfilagem geofísica, o perfurador não sabe com precisão onde está a camada argilosa da Araçatuba, em que intervalo o arenito tem permeabilidade suficiente para filtrar, e onde exatamente começa o basalto Serra Geral. Cada uma dessas respostas muda o projeto do poço de forma significativa.
Como detalhado no artigo sobre o perfil de raios gama, esse sensor é indispensável para distinguir argilas de arenitos. No contexto específico do SAB, os perfis mais utilizados e seus papéis são:
- Raios gama (GR): delimita os pacotes produtores da Formação Adamantina ou Caiuá e as camadas argilosas da Araçatuba com precisão centimétrica. É a base do projeto de posicionamento dos filtros.
- Resistividade (curta e longa investigação): mapeia a resistividade elétrica das formações saturadas. Água doce em arenito poroso gera alta resistividade; argilas saturadas e zonas com água mais mineralizada mostram valores baixos. No SAB, esse perfil ajuda a separar zonas de boa qualidade de intervalos com maior concentração de sólidos dissolvidos.
- Potencial espontâneo (SP): em conjunto com a resistividade, confirma a litologia e indica a salinidade relativa da água de formação. Um SP negativo pronunciado em arenito é sinal claro de aquífero limpo.
- Caliper: mede o diâmetro real do furo em cada profundidade. No SAB, onde arenitos finos tendem a desmoronar e criar folgas irregulares no espaço anular, o caliper define o volume exato de cimento necessário e identifica zonas que precisam de tratamento antes da cimentação.
- Temperatura e condutividade elétrica do fluido: revelam, durante o bombeamento, quais zonas estão efetivamente contribuindo com água e permitem estimar a proporção de cada pacote na produção total do poço.
Estudo de caso: poço industrial no interior paulista
Em 2024, a Equipe Hidroimagem atendeu uma indústria de alimentos localizada a cerca de 80 km a noroeste de Araraquara, com poço tubular de 180 metros perfurado na Formação Adamantina. O cliente relatava vazão abaixo do esperado e turbidez intermitente na água — os sintomas clássicos de dois problemas simultâneos: colmatação de filtro e entrada de material fino.
A perfilagem geofísica executada revelou três informações críticas que o histórico de perfuração não deixava claro:
- O filtro estava posicionado parcialmente sobre uma camada argilosa da Formação Araçatuba, com leituras de raios gama acima de 80 API — material de baixa permeabilidade e rico em finos. Aquele intervalo jamais deveria ter recebido filtro.
- O perfil de caliper indicou que o espaço anular entre os 60 e 90 metros apresentava diâmetro maior que o nominal — sinal de desmoronamento que comprometeu a cimentação e criou um canal de comunicação potencial com camadas mais rasas.
- Os perfis de resistividade e SP identificaram um intervalo promissor entre 120 e 155 metros, na base da coluna (Formação Caiuá), com resistividade superior a 80 Ω·m e SP negativo pronunciado — características típicas de arenito limpo saturado com água de boa qualidade, completamente ignorado pelo posicionamento original dos filtros.
Com base no laudo geofísico, o cliente realizou a filmagem óptica do poço para avaliar o estado físico do revestimento e dos filtros. As imagens confirmaram um rasgo no filtro na zona argilosa e um depósito de sedimento fino no fundo do poço. A reabilitação consistiu em vedar o intervalo argiloso, substituir o filtro danificado e reposicioná-lo na zona Caiuá identificada pela perfilagem. O resultado foi aumento de vazão de 3,2 m³/h para 8,7 m³/h e eliminação completa da turbidez nas semanas seguintes ao serviço.
Projeto de filtros no SAB: o erro mais comum
O dimensionamento dos filtros para poços no Aquífero Bauru deve ser orientado pela granulometria real de cada intervalo aquífero — não por tabelas genéricas do perfurador. A ABNT NBR 12212:2017, que regula o projeto de poços tubulares para captação de água subterrânea, exige que a abertura de tela do filtro seja selecionada em função da curva granulométrica do aquífero, de modo que ao menos 60% da areia nativa fique retida.
O erro mais frequente é aplicar a mesma abertura de filtro em toda a extensão da coluna, filtrando inadvertidamente camadas siltosas da Formação Araçatuba com a tela dimensionada para o arenito Adamantina ou Caiuá. O resultado é entrada imediata de finos e colmatação acelerada — um poço que começa a entregar areia nos primeiros meses de operação, com queda progressiva de vazão. O perfil de raios gama, ao delimitar com precisão onde começa e onde termina cada litologia, elimina esse risco antes mesmo de o revestimento ser descido.
Monitoramento de longo prazo e variação sazonal
Por ser livre a semiconfinado, o nível d'água em poços do SAB oscila de forma pronunciada entre as estações. No interior paulista, a diferença entre o nível máximo — medido ao final das chuvas de novembro a março — e o nível mínimo — no fim do inverno, em agosto e setembro — pode variar de cinco a quinze metros, dependendo da espessura saturada local e da intensidade das chuvas do ano. Medir essa variação ao longo do primeiro ano de operação é essencial para posicionar a bomba em uma profundidade que permita produção segura durante a seca sem que o motor opere acima da zona saturada.
A perfilagem de temperatura e condutividade elétrica do fluido, executada em duas campanhas em estações distintas, pode evidenciar mudanças nas zonas contribuintes entre a época chuvosa e a seca — informação valiosa para decisões sobre manejo, profundidade de bombeamento e eventuais obras de ampliação da captação.
Perguntas frequentes
O Aquífero Bauru tem capacidade para abastecer uma indústria de grande porte?
Depende da localização e da litologia local. Em zonas favoráveis da Formação Caiuá, transmissividades elevadas permitem vazões de 15 a 30 m³/h em um único poço. Na Formação Adamantina, o mais comum é obter entre 3 e 10 m³/h por captação. Para demandas industriais maiores, o projeto pode incluir múltiplos poços com distâncias mínimas calculadas para evitar interferência, ou a combinação com o Sistema Aquífero Guarani, desde que a profundidade e a geologia local permitam.
A perfilagem geofísica é obrigatória em poços no Aquífero Bauru?
O DAEE-SP exige a perfilagem geofísica para poços de grande porte e nos processos de outorga que incluem laudo técnico detalhado. Para poços menores, a obrigatoriedade varia conforme a portaria vigente e o porte da captação. Independentemente da exigência legal, a perfilagem é a ferramenta mais eficiente para otimizar o posicionamento de filtros e cimentação — o que representa menor custo operacional e maior vida útil da captação.
O que diferencia a água do Aquífero Bauru da água do Guarani?
A água do Sistema Aquífero Guarani é geralmente mais confinada, apresenta temperatura mais elevada (chegando a 30–40 °C nas zonas profundas), pH levemente alcalino e maior concentração de fluoreto em alguns setores do estado. A água do Bauru é mais fria, levemente ácida e, em geral, com menor teor de sólidos dissolvidos, porém mais vulnerável à contaminação superficial por ser aquífero livre. Ambas atendem à Portaria GM/MS 888/2021 na maior parte dos pontos amostrados em São Paulo quando captadas corretamente.
Como saber em qual formação do SAB o meu poço capta?
O perfil de raios gama combinado ao caliper e à resistividade permite identificar com precisão em que formação cada trecho do poço se encontra. O laudo geofísico da Hidroimagem inclui a coluna litoestratigráfica interpretada, com profundidades e unidades correspondentes indicadas metro a metro. Sem perfilagem, a única referência disponível é a descrição dos cuttings de perfuração, que tem precisão muito inferior e depende da experiência do operador em campo.
A acidez da água do Bauru danifica o revestimento do poço?
Sim, se o revestimento for de aço carbono sem proteção adequada. Água com pH entre 5,5 e 6,5 acelera a corrosão metálica, especialmente na zona de variação do nível d'água onde há contato com o oxigênio. A ABNT NBR 12212:2017 recomenda o uso de tubos galvanizados, PVC rígido ou aço inoxidável em aquíferos com pH corrosivo. A filmagem óptica do poço identifica precocemente sinais de corrosão no revestimento antes que o dano se torne irreparável.
Referências
DAEE-SP — Departamento de Águas e Energia Elétrica do Estado de São Paulo. Mapa de águas subterrâneas do estado de São Paulo. São Paulo: DAEE, 2005.
IRITANI, M. A.; EZAKI, S. As águas subterrâneas do estado de São Paulo. 3. ed. São Paulo: SMA/IG, 2012.
ABNT NBR 12212:2017 — Projeto de poço para captação de água subterrânea.
ABNT NBR 12244:2006 — Construção de poço para captação de água subterrânea.
PORTARIA GM/MS nº 888/2021 — Procedimentos de controle e vigilância da qualidade da água para consumo humano e seu padrão de potabilidade.
ODA, G. H. et al. Hidrogeologia da Formação Adamantina, bacia do Paraná, estado de São Paulo. Revista Brasileira de Geociências, v. 40, n. 3, 2010.
CPRM/SGB — Serviço Geológico do Brasil. SIAGAS — Sistema de Informações de Águas Subterrâneas. Disponível em: http://siagasweb.cprm.gov.br